MINHA PRAIA ARDOROSA E SOLITÁRIA
Aberta
ao grande vento e ao largo mar
tu
me viste querer-lhe com a doce
piedade dos sonhos do luar…
É com a simpática ajuda do nosso querido mestre Agostinho da
Silva e com a primeira quadra do seu poema Praia, que inicio este texto simples
que pretende falar-vos do meu gosto pelas
praias deste país.
A nossa costa tem muitas dezenas de praias maravilhosas ao
longo de 943 km. Não as conheço todas, infelizmente só visitei uma pequena
percentagem apesar de, durante alguns anos ter albergado o sonho, ou a
fantasia, de as conhecer todas. Começaria em Caminha e viria descendo,
lentamente, em vários anos, até Monte Gordo. Podia até escrever um livro a
descrever a experiência mas… fica para quando eu cá voltar, na próxima
encarnação.
Das que mais gosto são, de norte para sul, as seguintes: Ofir,
Póvoa de Varzim, Costa Nova, Vagos, Figueira
da Foz, Santa Cruz, Ericeira, Foz do Lisandro, Praia das Maçãs, Praia Grande,
Guincho, Avencas, Carcavelos, Costa da Caparica, Lagoa de Albufeira, Sesimbra, Figueirinha,
Zambujeira do Mar, Aljezur, Meia Praia, Albufeira, Praia da Rocha, Praia do
Barril, Cabanas, Manta Rota e Monte Gordo.
Creio serem todas boas praias mas todas diferentes. Daria pano para
mangas, mas talvez fosse bem interessante, descrever as caraterísticas de cada
uma delas e salientar o que têm de melhor. Fica para o tal livro…
Confesso que não compreendo as pessoas que, tendo acesso fácil
às nossas praias, desperdiçam a oportunidade de desfrutar esta maravilha que
temos ao nosso dispor. Talvez seja por eu gostar tanto e lá ter sido tão feliz
ao longo dos anos. Comecei na juventude. Acompanhado por cinco ou seis colegas,
apanhávamos o comboio até Carcavelos ou até ao Estoril onde jogávamos à bola,
dávamos grandes mergulhos e nos divertíamos à grande. Mais tarde foi a vez do
namoro e das saudosas barracas, bem acolhedoras e discretas … . Depois os
filhos e a delícia de brincar com eles nas ondas, na areia, nas rochas. E
finalmente os netos e a repetição da alegria das crianças – uma maravilha.
Por vezes vou só e gosto também. Caminhar junto ao mar,
observando as pessoas, (em especial as crianças porque são mais efusivas, mais
alegres, mais genuínas, em suma- mais encantadoras) e vivendo o ambiente que, e
aqui reside a magia da praia, é sempre animado e descontraído, raramente se
ouve uma palavra mais azeda, parece que todas as desavenças, todas as zangas
foram esquecidas para que na praia reine a boa disposição e a alegre comunhão
familiar. Quando a água não está fria tomo um banho e regresso à toalha onde
tenho o prazer de ter à minha espera o Torga ou o Eça ou até, um Steinbeck ou
um Hemingway. Com toda esta companhia o tempo passa rápida e agradavelmente e é
já com uma ponta de saudade que regresso a casa. Como prémio por terem viajado comigo pelas
minhas praias, aqui fica a parte que falta do poema do venerando Agostinho da
Silva que nasceu no Porto em 1906 e faleceu em Lisboa em 1994. Foi filósofo,
poeta e ensaísta e uma figura interessantíssima da nossa cultura.
( para melhor compreensão do poema, peço que releiam a
primeira quadra, no inicio do texto, e só depois as outras)
Teus
cabos se adiantam como braços
para
abraçar as ninfas receosas
que
fugindo oferecem sobre as vagas
suas nítidas formas
amorosas
Braços paralisados por desejo
que
o mundo e sua lei não permitiu
ou suspendeu amor
que livre jogo
maior que posse em fugaz tempo viu
Como
vós me alongo e como tu
areia me ofereço a toda sorte
Por
sua liberdade ou por destino
que
por só dela seja belo e forte.
Sérgio Figueiredo